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O Globo - Esportes - 14/04/2009

Quem é o pé-frio da decisão?Quem é o pé-frio da decisão?
Adversários, Cuca e o Botafogo tentam se livrar do estigma que conquistaram juntos
 
Pedro Motta Gueiros
Ao jogar a bola para o alto, como quem lança uma moeda à sorte, o técnico Cuca deixou a sua primeira conquista a cargo do tempo e do destino. Duas vezes vice-campeão estadual pelo Botafogo contra o Flamengo, o técnico quer passar para o lado oposto, o da vitória rubro-negra, a começar pela final da Taça Rio. Em todas as brincadeiras pela cidade, a questão a ser respondida no domingo é se Cuca levou para a Gávea a impossibilidade de ser campeão ou se este limite ficou em General Severiano. Além da meia, da chuteira, e da tentativa de tornar definitiva uma condição transitória, há outros fatores que envolvem a lenda do pé-frio no futebol.

— Pessoas que sofrem de pé frio normalmente têm pressão mais baixa, costumam ser mais calmas e lentas. — diagnosticou o podoterapeuta Luiz Pedreira, que é torcedor do Vasco e tem um profissional de sua empresa cuidando dos pés dos jogadores do Botafogo. — Pé frio é algo que incomoda até na hora de dormir. Uma meia de lã de carneiro ajuda bastante. Como vascaíno, o meu até já congelou.

Popularmente, pé-frio é aquele que já morreu. Sem a circulação sanguínea, todo corpo se enrijece e resfria. Da imagem com a qual ninguém quer se deparar, vem, segundo o especialista, a expressão que anuncia o mensageiro do mau agouro. Sua origem, nem o professor e imortal Domício Proença pôde localizar com rapidez. Assim como o ocupante da cadeira 28 da ABL, para Cuca o trabalho de desconstruir o estigma é lento. Aos 45 anos, o técnico se considera novo na profissão e evita esperar pela primeira vez como uma obsessão sob pena de não concretizá-la. Envolvido dos pés à cabeça no trabalho, sabe que temperatura e marés oscilam naturalmente. Até o fim dos anos 90, o São Paulo de Rogério Ceni era tido como um time perdedor. Ironizados à época por sua fragilidade, hoje ninguém é mais forte que os tricolores no futebol brasileiro.

— Não acredito nessa história de dizer que alguém é pé-frio. Como uma pessoa poderia influenciar um jogo que envolve tantas coisas? — indagou Ibson, pronto para vestir o meião naquela que pode ser sua última decisão pelo Flamengo. — Desde os 9 anos de idade venho construindo minha história no Flamengo. Acho que ficarei bem emocionado ao entrar em campo.

Técnico reagiu à ironia alvinegra
— A cada vitória, Ibson alonga sua passagem vitoriosa e dá a chance de Cuca fazer parte dela. Suspenso, o técnico só estará à beira do campo numa eventual segunda partida da decisão. Nos anos anteriores, levantou a Taça Rio pelo Botafogo, falou como campeão e se sentia como tal, até perder as decisões em seguida. O retrospecto mostra o quanto o frio e o calor se misturam no coração dos torcedores.
 
Idolatrado em General Severiano, passou a responsável pelos dissabores depois que o clube conquistou a Taça Guanabara sem ele. Ao devolver o grito que lhes era destinado pela torcida do Flamengo, os alvinegros decretaram: "Vice é o Cuca!." Ao responder à provocação, o técnico mostrou o quanto a ironia o incomoda e motiva. Na Gávea, o vice de futebol, Kleber Leite, e Leonardo Moura já enfrentarem seus invernos particulares. Depois de elevar as expectativas nas alturas com a contratação de Romário, Kleber deixou a presidência com quatro títulos perdidos no Maracanã. Ao reassumir o futebol, à beira do rebaixamento em 2005, ganhou o bi estadual e a Copa do Brasil:

—    Não existe sorte ou azar, e sim trabalho. É preciso ver o caminho que já percorremos desde 2005.

Até aquele ano, Leonardo Moura já acumulava algum prestígio e nenhum título. Desde então, tornou-se um lateral campeão:

— Não tem nada a ver falar em pé-frio. Isso é folclore do torcedor.

Se faz parte da cultura popular, então o pé-frio existe ao menos como elemento da festa. Na tentativa do torcedor de ter o controle de um jogo incontrolável, é mais fácil personalizar o fracasso do que apenas aceitá-lo. Nas últimas duas decisões do Estadual, embora o Botafogo fosse o melhor time na primeira, o Flamengo venceu ambas porque tempo e destino conspiraram a seu favor. Cuca e o Botafogo foram, mas não são, definitivamente, derrotados. Um deles vai enrolar a lenda do pé-frio com a faixa de campeão.

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